Quando o cuidado vira obsessão: os sinais e riscos dos transtornos alimentares
- Gabriela Costa

- 12 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de mar.
A preocupação excessiva com o corpo pode até parecer uma forma de cuidado ou uma mudança de hábito saudável, mas, observada mais profundamente, esconde um sofrimento constante

Dietas, academias ou as famosas canetas emagrecedoras se tornaram uma espécie de kit padrão para aqueles que desejam alcançar o tão esperado “corpo perfeito”. Rostos angelicais que fazem harmonia com corpos magros ou voluptuosos se tornaram o sonho de consumo de centenas de mulheres ao redor do mundo.
A preocupação excessiva com o corpo pode até parecer uma forma de cuidado ou uma mudança de hábito saudável, mas, observada mais profundamente, esconde um sofrimento constante que pode se transformar em uma obsessão perigosa, causando danos à saúde física e mental.
O transtorno alimentar é uma doença grave que afeta a relação do indivíduo com a comida, marcada por hábitos alimentares bastante irregulares. Atualmente, somente no Brasil, cerca de 15 milhões de pessoas sofrem de algum tipo de transtorno alimentar grave, como anorexia nervosa, bulimia nervosa ou compulsão alimentar. Em grande maioria, são mulheres entre 6 e 18 anos que desenvolvem a doença.
Segundo a psicóloga especialista em tratamento para obesidade e emagrecimento, Rosélia Gomes Bernardino, os transtornos alimentares não surgem do nada. Eles costumam estar ligados a uma narrativa de vida muito rígida: comparações constantes, comentários sobre o corpo, experiências de bullying, críticas familiares, traumas, ansiedade e a necessidade de controle são gatilhos frequentes.
“A comida ou o controle alimentar passa a ter uma função emocional: aliviar dor, silenciar pensamentos difíceis ou tentar recuperar uma sensação de valor pessoal. O problema é que, a longo prazo, isso aumenta o sofrimento”, afirma.
Nos últimos anos, o descontentamento com a imagem se tornou uma tendência entre as jovens. Dicas de como “sumir com as estrias” ou “afinar as coxas” migraram para as redes sociais, onde são disfarçadas em vídeos com músicas alegres e legendas divertidas. Além disso, surgem fóruns que ensinam a induzir vômitos. A repetição dessas mensagens leva o indivíduo - muitas vezes adolescentes - à comparação constante, criando um processo cíclico de autodestruição.
“Na clínica, o que a gente observa é que mudanças drásticas no corpo, muitas vezes, não vêm acompanhadas de uma sensação de satisfação ou segurança interna. Na minha visão, o problema não é mudar o corpo, mas acreditar que só depois dessa mudança a pessoa poderá ser aceita, amada ou se sentir suficiente. Isso cria uma dependência de validação externa. A pessoa até muda fisicamente, mas continua em luta constante com pensamentos de inadequação, medo do julgamento e autocrítica, gerando sempre uma distorção da autoimagem”, pontua a psicóloga.
Como identificar um transtorno alimentar?
O transtorno alimentar não se inicia com mudanças perceptíveis no corpo ou comportamento. Os sinais aparecem de forma silenciosa, começando com pensamentos excessivos sobre comida, peso ou calorias; culpa ao comer; ausência em refeições sociais; rigidez na escolha dos alimentos; e prática exagerada de exercícios físicos como forma de punição.
No corpo, surgem sintomas como anemia, hipotermia, problemas gastrointestinais e inibição menstrual (no caso de mulheres).
“Restrição severa, compulsão, comportamentos compensatórios como comer e depois vomitar ou usar laxantes, perda ou ganho de peso rápido e pensamentos obsessivos são sinais claros de que algo precisa ser cuidado. Quando a relação com a comida ou com o corpo começa a gerar sofrimento, isolamento, ansiedade ou prejuízos na vida social e emocional, é hora de procurar ajuda”, explica Rosélia.
Após o diagnóstico, o tratamento para transtornos alimentares é feito com o apoio de uma equipe multidisciplinar envolvendo médicos, psicólogos, psiquiatras e nutricionistas, com abordagem específica para cada caso.
Como manter a qualidade de vida sem transformar o cuidado em obsessão
Mudanças nos hábitos alimentares são importantes para a saúde, mas o problema começa quando essa mudança se torna obsessão. Cuidar do corpo não exige perfeição, e sim equilíbrio entre mente e alimentação. Isso envolve aprender a comer com consciência, respeitar sinais de fome e saciedade, praticar atividades físicas que tragam prazer e não punição.
“Cuidar da saúde mental é entender que o bem-estar não nasce do controle extremo, mas da aceitação e de escolhas alinhadas com aquilo que realmente importa na sua vida”, finaliza Rosélia.


Comentários