Por que a população em situação de rua cresce no interior de São Paulo?
- Vitor Nelson

- 8 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de mar.
Profissionais apontam que fatores econômicos, familiares e de saúde mental estão por trás do crescimento

O crescimento do número de pessoas em situação de rua tem chamado a atenção de autoridades, profissionais, especialistas e da sociedade. Segundo o Censo da População em Situação de Rua, realizado em 2023 em escala nacional, mais de 236 mil brasileiros vivem em condições de extrema vulnerabilidade, sendo que o estado de São Paulo concentra quase 40% desse total.
Se antes essa realidade era associada apenas às capitais, hoje ela é cada vez mais observada em cidades médias e pequenas, como Catanduva, no interior paulista. Dados da Secretaria de Assistência Social mostram que o município registrava cerca de 80 pessoas em situação de rua em 2019. Atualmente, esse número ultrapassa 200, o que representa mais que o dobro em apenas cinco anos.
Profissionais da área apontam que o aumento da população em situação de rua é resultado de múltiplos fatores. Lucas Cintra, diretor da Assistência Social de Catanduva, destaca que a crise econômica e a precarização do mercado de trabalho são as principais razões.
“Nos últimos anos, o aumento do número de pessoas em situação de rua em cidades pequenas tem chamado a atenção. Dificuldades econômicas, como desemprego, subemprego e aumento do custo de vida, fazem com que famílias não consigam arcar com aluguel e despesas básicas.”
A fragilidade nas relações familiares também contribui para esse cenário. Conflitos domésticos, separações, abandono e falta de apoio a jovens e idosos em situação de vulnerabilidade são fatores recorrentes. Guilherme Rodrigues Mendonça, de 39 anos, vive em situação de rua em Catanduva após desentendimentos familiares.
Não é fácil e também não é difícil. Hoje, estou tentando sair, entregando currículos.” Ele conta que, apesar de manter hábitos de higiene e buscar oportunidades, o preconceito da sociedade continua sendo um obstáculo. Às vezes a pessoa tá limpa, quer melhorar, mas a mochila já faz a gente ser olhado diferente.
Além das questões econômicas e familiares, a saúde mental e o uso abusivo de álcool e outras drogas também são fatores que levam muitas pessoas às ruas.
“Muitos não reconhecem que o uso abusivo de álcool ou drogas contribui para a situação em que vivem. Por isso, há necessidade de um trabalho contínuo de conscientização e acompanhamento”, explica Natyéllen Casimiro de Moraes, assistente social do Centro POP de Catanduva, que acolhe pessoas em situação de rua.
Em Catanduva, a maioria das pessoas que vivem nas ruas da cidade são do sexo masculino. Além disso, há uma parcela significativa de migrantes temporários, que chegam à cidade para trabalhos sazonais e acabam permanecendo sem condições de se manter.
“Faz seis meses que estou na rua. Sempre trabalhei, tive casa, família, mas acabei me separando. E como a situação do país está difícil, vim morar na rua”, relata Henrique Carmona dos Santos, de 45 anos.
Como forma de ajudar essa população a sair das ruas, especialistas defendem a necessidade de os municípios investirem em políticas públicas voltadas para essa realidade. O problema é que albergues, repúblicas sociais e programas habitacionais ainda são escassos, tornando o acolhimento difícil.
“Atualmente, o desafio é integrar políticas de moradia, saúde e assistência social. Sem esse suporte, a reintegração é muito mais difícil”, afirma Lucas Cintra.
Em Catanduva, o Centro POP é um exemplo de serviço essencial para essa população. O equipamento oferece atendimento diário, incluindo alimentação, higiene, documentação civil e encaminhamento para programas sociais. No entanto, também enfrenta desafios: muitos atendidos não possuem vínculo familiar ou rede de apoio.
“Muitas pessoas chegam em situação de crise, com problemas de saúde mental e dependência química. Sem apoio familiar, a saída das ruas fica muito mais difícil”, relata Renata Martins, psicóloga do Centro POP.
Para profissionais especializados no acolhimento desse público, a saída desse cenário passa por políticas integradas, que unam acolhimento, programas habitacionais, saúde mental e reinserção social.
Enquanto essas medidas não avançarem nos municípios menores, as pessoas em situação de rua continuarão a enfrentar a exclusão social e a ocupar espaços visíveis da cidade, lembrando diariamente da urgência em oferecer alternativas reais de dignidade e proteção.














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