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Falta de lazer em cidades pequenas empurra adolescente ao álcool

  • Foto do escritor: Bruno Garcia
    Bruno Garcia
  • 7 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.

O consumo de álcool na adolescência é um problema grave, que pode gerar consequências a curto e longo prazo. No Brasil, jovens estão consumindo bebidas alcoólicas cada vez mais cedo

Adolescentes consumindo bebida alcoólica. (Foto: Vitor Nelson)
Adolescentes consumindo bebida alcoólica. (Foto: Vitor Nelson)

O consumo de álcool na adolescência é um problema grave, que pode gerar consequências a curto e longo prazo. No Brasil, jovens estão consumindo bebidas alcoólicas cada vez mais cedo. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada em 2019, aponta que 63,3% dos adolescentes entre 13 e 17 anos afirmam já ter experimentado algum tipo de bebida alcoólica.


Embora a venda e o consumo sejam permitidos apenas para maiores de 18 anos, não é difícil encontrar menores consumindo bebidas alcoólicas no país. Esse cenário é ainda mais preocupante em cidades menores, onde o consumo de álcool torna-se uma marca registrada entre os adolescentes.

“É comum ver amigos começando a beber cada vez mais cedo, porque, para muitos, essa é a única maneira de preencher o vazio da falta de entretenimento. Eu mesma já senti essa pressão e percebo como isso molda a juventude daqui, que poderia estar ocupando o tempo com atividades culturais, esportivas ou até espaços de convivência diferentes”, diz Olivia de Carvalho, de 18 anos, moradora de Palestina (SP), município com aproximadamente 12 mil habitantes.

Na cidade onde Olivia vive, não há cinema, shopping, centros culturais ou qualquer espaço cultural com programação semanal.

“O que tem são sempre as mesmas opções: um barzinho no fim de semana ou alguma festa caseira organizada por amigos ou conhecidos. No começo até parece divertido, mas, depois de um tempo, vira algo repetitivo e até cansativo”, lamenta.

Outro fator que contribui para o uso de bebida alcoólica em cidades menores é o hábito de “conhecer todo mundo”. Isso facilita que os pais permitam que os filhos saiam de casa para festas, que muitas vezes são regadas a bebida alcoólica.

“Não tem muito o que fazer quando se é adolescente em cidades menores. Por isso, muitos jovens, assim como eu, recorrem a círculos de amizade de faixas etárias diferentes. Nisso, acabamos conhecendo gente que já ingere bebida alcoólica, o que nos induz a começar a consumir também”, revela Daniel Cunha, de 23 anos, que cresceu em Nova Granada - cidade com aproximadamente 19 mil habitantes - e começou a beber ainda na adolescência.

Falta de lazer


A psicóloga Louise Batista aponta que a adolescência é um período de descobertas e turbulências.

“É a fase em que a gente quer explorar o mundo, se encontrar, entender quem somos e onde nos encaixamos.”

Em cidades pequenas, essa jornada, que já é complexa por natureza, torna-se ainda mais desafiadora.

“A falta de opções de lazer e recreação não é apenas um incômodo. Ela cria um vazio. E é aí que a bebida entra em cena. De repente, a festa na casa de alguém, o encontro no posto de gasolina ou na praça se tornam os únicos eventos que quebram a monotonia”, diz Batista.

Segundo ela, em cidades menores, o álcool não é só uma bebida. Ele é o ingresso para a diversão, o passaporte para a desinibição e, acima de tudo, a moeda de troca para a aceitação social. "Beber, nesse contexto, vira um ritual de pertencimento. É a forma de se sentir parte de algo, de não ficar de fora”.


Possível solução


Especialistas ouvidos pelo Intervalo ressaltam que, diferente do que a maioria das pessoas imagina, a solução para acabar com o consumo desenfreado de bebida alcoólica entre os jovens em cidades menores não está apenas em proibir o consumo, mas em investir em espaços de lazer.

“Precisamos de quadras de esporte de verdade, de centros de arte, de bibliotecas ativas, de oportunidades para que os jovens possam se conectar de forma genuína uns com os outros, sem precisar de álcool para se sentirem à vontade. Quando oferecemos lazer e recreação, estamos oferecendo mais do que uma atividade; estamos oferecendo um motivo para não beber, um motivo para se interessar pela vida, para descobrir talentos e para se conectar com os outros de uma forma significativa”, afirma a psicóloga.

Procurado sobre as queixas de Olivia quanto à falta de opções de lazer em Palestina (SP), Cláudio Rocha, diretor municipal de Esporte, Cultura e Lazer do município, disse que a Prefeitura oferece à população diversas modalidades esportivas.

“Crianças e adolescentes de 6 a 18 anos podem desfrutar do futebol, vôlei, futsal e natação, sendo que todas as modalidades são exercidas em horários opostos aos escolares, de segunda a sexta-feira.”

No Brasil, é proibido vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar bebida alcoólica a crianças e adolescentes, mesmo que de forma gratuita.


Quem for flagrado vendendo, fornecendo ou servindo bebida alcoólica para menores de idade pode ser condenado à pena de detenção, que varia de 2 a 4 anos, podendo ter a pena aumentada de um terço até a metade caso a substância seja efetivamente consumida por meninos e meninas com menos de 18 anos.


Os donos de estabelecimentos que vendem bebida alcoólica para menores também podem ser multados e ter o local interditado até o recolhimento da multa.

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